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Cultura

Mestres da capoeira: guardiões de uma herança que não pode ser esquecida

Por Aline Santana 11 de junho de 2026
Roda de capoeira — Salvador, BA

Mestre Zé Pequeno tem 78 anos e ainda entra na roda. Não com a agilidade de antes — ele mesmo admite isso com um sorriso — mas com uma presença que faz os mais jovens pararem e prestar atenção. Quando ele toca o berimbau, algo muda no ar do galpão no bairro da Liberdade, em Salvador.

"A capoeira não é só luta. Não é só dança. É uma forma de ver o mundo", ele diz, enquanto afina o instrumento com gestos que parecem automáticos depois de seis décadas de prática. "Quem aprende capoeira aprende a se defender, mas também aprende a se conhecer."

Mestre Zé Pequeno é um dos últimos representantes de uma geração que aprendeu a capoeira Angola nas ruas e nos terreiros, antes que ela se tornasse patrimônio cultural imaterial do Brasil — reconhecimento que veio em 2008, mas que para muitos mestres chegou tarde demais.

Uma tradição em transformação

A capoeira hoje é praticada em mais de 150 países. Há academias em Tóquio, em Berlim, em Nova York. Isso é motivo de orgulho para muitos, mas também de preocupação para os guardiões da tradição mais antiga.

"Quando a capoeira viaja, ela muda. Às vezes perde coisas importantes pelo caminho", diz Mestra Conceição, 65 anos, que dirige um grupo no Recôncavo Baiano. "A gente precisa garantir que as raízes fiquem aqui, mesmo que os galhos cresçam pelo mundo."

"Eu não ensino capoeira. Eu transmito uma herança. Tem uma diferença enorme nisso."
— Mestre Zé Pequeno, Salvador

A distinção que Mestre Zé Pequeno faz entre "ensinar" e "transmitir" é central no debate sobre a preservação da capoeira Angola. Para ele, a transmissão implica uma relação de continuidade com os ancestrais — com os africanos escravizados que criaram a capoeira como forma de resistência, com os mestres que vieram antes, com a história que está inscrita em cada movimento.

Os jovens e a tradição

Nem tudo é pessimismo. Em Salvador e no Recôncavo, há uma nova geração de capoeiristas que está se dedicando a aprender não apenas os movimentos, mas a história, a música, a filosofia que sustentam a prática.

Tiago, 22 anos, é aluno de Mestre Zé Pequeno há seis anos. "Eu comecei achando que era esporte. Aí fui entendendo que era muito mais do que isso. Hoje eu me vejo como parte de uma linhagem. Isso é uma responsabilidade, mas também é uma honra."

Mestre Zé Pequeno ouve o depoimento do aluno com aquele sorriso de sempre. "É isso. Quando um jovem entende isso, eu sei que a herança vai continuar."

Aline Santana

Repórter — Cultura

Baiana de Salvador, especializada em cultura afro-brasileira, artes populares e patrimônio imaterial. Mestre em antropologia pela UFBA.