O terreno ficou abandonado por quase seis anos. Era um espaço de 800 metros quadrados no meio do bairro Parangaba, em Fortaleza, que servia de depósito de entulho e ponto de descarte irregular de lixo. Hoje, no mesmo lugar, crescem tomates, coentro, alface, quiabo e mais de 30 outras espécies de plantas — e, toda manhã, um grupo de moradores se reúne para cuidar do que plantou.
A horta comunitária do Parangaba é resultado de dois anos de organização de vizinhos que decidiram que o terreno poderia ser mais do que um problema. A iniciativa começou com uma reunião de condomínio que saiu do roteiro.
"A gente estava discutindo o lixo no terreno e alguém falou: e se a gente plantasse alguma coisa? Todo mundo achou que era loucura", conta Dona Raimunda, 61 anos, uma das fundadoras da horta. "Mas a loucura funcionou."
Como funciona
A horta é gerida por uma associação informal com 47 membros ativos. Cada família tem um canteiro de 4 metros quadrados, pelo qual é responsável. Há também áreas coletivas destinadas a plantas medicinais e a espécies que exigem mais espaço, como abóbora e melancia.
O projeto não recebe financiamento público. As sementes vêm de doações e de trocas com outras hortas comunitárias da cidade. As ferramentas foram compradas com uma vaquinha entre os moradores. A água é fornecida por um sistema de captação de chuva instalado com ajuda de um estudante de engenharia da UFC que mora no bairro.
"Quando você planta algo e vê crescer, muda sua relação com o lugar onde você mora. O bairro passa a ser seu de uma forma diferente."
— Dona Raimunda, fundadora da horta
Além da produção de alimentos, a horta virou ponto de encontro. Aos sábados de manhã, há uma feira pequena onde os moradores trocam o excedente da produção. Algumas famílias já reduziram significativamente os gastos com verduras e legumes.
Replicando o modelo
A experiência do Parangaba chamou atenção de outras comunidades de Fortaleza. Pelo menos três bairros estão em processo de organização para criar hortas semelhantes, e a associação do Parangaba tem recebido visitas de grupos de outras cidades do Nordeste.
Dona Raimunda não esperava que a "loucura" chegasse tão longe. "A gente só queria resolver o problema do terreno. Mas aí a gente percebeu que tinha resolvido outros problemas também — de solidão, de alimentação, de pertencimento. Isso não tem preço."